História das Revoluções Monetárias. Conclusão e bibliografia completa

Os espíritos mais argutos verão neste trabalho de conclusão de curso que entreguei ano passado (2021) um pano de fundo católico tradicionalista contra-revolucionário, e sobretudo mais do que um intuito teórico.

Sumário, introdução e 1ª fase: ASCENSÃO DO EXPANSIONISMO MONETÁRIO

2ª Fase: RESERVA FRACIONÁRIA LEGAL

3ª Fase: DESMONTE DO PADRÃO-OURO NO OCIDENTE

4ª FASE: BANCO CENTRAL

CONCLUSÃO E BIBLIOGRAFIA COMPLETA

CONCLUSÃO OU CONSIDERAÇÕES FINAIS

Foi possível identificar quatro revoluções monetárias que se somavam de modo processivo: 1 – a nova prática bancária, 2 – a institucionalização da nova prática, 3 – o fim do padrão-ouro que teve como subproduto paralelo a mudança social no uso do título público, e 4 – a autoridade monetária, normalmente o Banco Central, como fiador da nova prática, alquimista deste título público e, por conseguinte, garantia de que o padrão-ouro não precisaria retornar, bem como a sua política monetária preferencialmente frouxa (expansionista).

As investigações históricas deste trabalho, que trata de um tema específico e de interesse quase exclusivo para economistas, levam a afirmar, por outro lado, que a volta ao padrão-ouro parece inviável na atual conjuntura social mundial, como dito na seção 4.2.1 acerca de hipóteses de manipulação de seu valor global.

Assim, se “nenhum tipo de moeda pode ser utilizado em uma sociedade como meio de troca geralmente aceito sem que se sustente em um processo histórico muito prolongado que derive da utilização industrial ou comercial original do bem em questão (tal como ocorreu com o ouro e a prata)” (HUERTA DE SOTO, 2012, P. 608), um bem que sirva de padrão monetário internacional, digno de fé, não-manipulável, com promessa de prevalência para o futuro, e que tenha se sustentado “em um processo histórico muito prolongado” hoje, pelo menos, é inexistente na atual conjuntura econômica mundial.

Se algum dia tal padrão aparecer, ainda que não por motivos primordialmente comerciais ou econômicos, talvez seja possível cogitar se tal bem (se se pode reduzi-lo ao conceito de bem dado na ciência econômica) serviria para ser uma moeda global como o ouro outrora foi. Aprofundar-se nisso talvez requeresse outro trabalho.

Por fim, a narrativa destas complicações históricas misturadas com o pensamento econômico de cada tempo parece, dentro da estrutura bancária atual, confirmar aquilo que o Papa Pio XII sagazmente percebera para seu tempo em discurso aos participantes do Congresso do “Instituto Internacional das Finanças Públicas”:

“Tal estado de coisas influi mais infelizmente nas mentalidades dos indivíduos. O indivíduo vem a ter cada vez menos compreensão dos assuntos financeiros do Estado. Mesmo na mais sábia política ele suspeita sempre de alguma força misteriosa, algum motivo escondido e malicioso que ele deve prudentemente desconfiar e se proteger. Eis aí, brevemente, onde se deve definitivamente buscar a causa profunda da decadência da consciência moral de todas as pessoas — de todas as classes — em matéria de finanças públicas e principalmente em matéria fiscal”.

(PIO XII, 1948 apud DEMPSEY, 1958, P. 435)

Por outro lado, dado a metáfora da conjuntura macroeconômica atual com a imagem da máquina de mil botões e seu único operador, desenvolver um trabalho teórico a fim de rastrear os matizes desta máquina não é atraente, e nem parece preferível a outros campos de atuação e estudo da ciência econômica.

Se sob o ponto de vista teológico dos escolásticos pioneiros na análise do julgamento da justeza dos novos contratos econômicos e bancários, usura é bem diferente de investimento financeiro conforme extensamente demonstrado na seção 1, a usura parece ter penetrado sob novas roupagens no ocidente, segundo o professor de economia Dempsey relata, notando como o seu termo “usura institucional” aplicado para estudos econômicos, parecia ser o que o Papa Leão XIII tinha em mente quando disse sobre condição dos trabalhadores (DEMPSEY, 1958, P. 441): “A usura voraz veio agravar ainda mais o mal. Condenada muitas vezes pelo julgamento da Igreja, não tem deixado de ser praticada sob outra forma por homens ávidos de ganância, e de insaciável ambição.” (LEÃO XIII, 1891, 2. Grifo nosso)

O economista também americano John D. Mueller (2010, P. 107-108, Part 1, C. 5) argumenta que a redescoberta de um elemento faltante na economia levaria a ciência econômica a uma Era de pensamento neoescolástico. Após examinar a história e como esta foi mudando a mentalidade do homem ao longo do tempo, é preciso dizer que antes de um ressurgimento do método escolástico e a admissão social do que sempre existiu e foi evidente, urge-se entender o processo histórico que modificou a psicologia do homem: algo teria que desfazer enormes redes de influências em prol da revolução monetária em todo o globo. Estas parecem não ter interesse pecuniário na mudança do status quo. Este trabalho fez árduo esforço para mostrar como a história segue, muitas vezes, rumos bem diferentes dos pensadores de seu tempo.

Por fim, para qualquer público ou economista, o caráter didático desta divisão da história das mudanças, ou melhor, revoluções na estrutura monetária do ocidente poderá servir de norte para embasar o aspecto intercurricular do ensino econômico, principalmente o no nível macro, pois podendo retroceder até a idade moderna (assim aceita por quase todos os sociólogos de diferentes vertentes), joga luz na prática bancária atual e, como brinde, comenta a história do pensamento econômico sem precisar voltar até quem inventou o hábito de andar a pé, e sem passar a impressão de que só a modernidade possui a chave de todas as ciências.

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