Papas julgam a economia de livre mercado ou liberalismo econômico

Ressaltando que o capitalismo é diferente do liberalismo ou individualismo, e que a Igreja é contra a economia intervencionista estatizante que assola a livre iniciativa, passamos a elucidar a diferença entre esta livre iniciativa e a economia de livre mercado.

Economia de mercado: economia majoritariamente dirigida pela livre iniciativa e o livre mercado, mas com intervenção estatal nos contratos (litígio, contrato imoral, etc), fraudes de comércio (preço predatório, cartel, tipos de golpe pirâmide, etc) ou na falha ou ausência da iniciativa privada.

Economia de livre mercado: economia totalmente regida pela livre iniciativa e o livre mercado, sem nenhuma intervenção estatal na economia.

Economia planificada ou dirigida: economia majoritariamente dirigida ou sob forte influência dos atos do governo.

Livre mercado: mercado regido pelas leis internas da oferta e da demanda que não sofre intervenção estatal.

Destas definições, que se tiram dos textos da Tradição Católica citados neste artigo e nos recomendados acima, é a economia de mercado que corresponde à Doutrina Católica, o que podia ser melhor chamada de economia de mercado católica. Agora, apesar de muitos quererem identificar a economia de mercado com a de livre mercado, ainda é notório que não é a mesma coisa.

Já o livre mercado em si mesmo não é ruim, sendo meramente algo regido pela matemática das relações comerciais. Ele depende do seu contexto, pelo fato de que os agentes econômicos podem manipular esta matemática. Um livre mercado com práticas fraudulentas ou contratos imorais, por exemplo, prejudica a sociedade, chamando a justa intervenção do Estado. Por isso, uma economia que quer ser dirigida só por ele é má, como dizem os Papas sobre as forças invisíveis, já que permitiria essa situação injusta.

liberalismo econômico, chamado também de economia de livre mercado ou economia liberal, é imoral, e crê erroneamente que a livre concorrência pode servir de norma reguladora à vida econômica, ainda que dentro de certos limites ela seja justa e vantajosa. 

-Papas contra o liberalismo econômico ou economia liberal ou economia de livre mercado

Pio XI citando os predecessores

“Como não pode a unidade social basear-se na luta de classes, assim a reta ordem da economia não pode nascer da livre concorrência de forças. Deste princípio como de fonte envenenada derivaram para a economia universal todos os erros da ciência econômica “individualista”; olvidando esta ou ignorando, que a economia é juntamente social e moral, julgou que a autoridade pública a devia deixar em plena liberdade, visto que no mercado ou livre concorrência possuía um princípio directivo capaz de a reger muito mais perfeitamente, que qualquer inteligência criada. Ora a livre concorrência, ainda que dentro de certos limites é justa e vantajosa, não pode de modo nenhum servir de norma reguladora à vida econômica. Aí estão a comprová-lo os factos desde que se puseram em prática as teorias de espírito individualista. Urge por tanto sujeitar e subordinar de novo a economia a um princípio diretivo, que seja seguro e eficaz. A prepotência econômica, que sucedeu à livre concorrência não o pode ser; tanto mais que, indômita e violenta por natureza, precisa, para ser útil a humanidade, de ser energicamente enfreada e governada com prudência; ora não pode enfrear-se nem governar-se a si mesma. Força é portanto recorrer a princípios mais nobres e elevados: à justiça e caridade sociais. E preciso que esta justiça penetre completamente as instituições dos povos e toda a vida da sociedade; é sobre tudo preciso que esse espírito de justiça manifeste a sua eficácia constituindo uma ordem jurídica e social que informe toda a economia, e cuja alma seja a caridade. Em defender e reivindicar eficazmente esta ordem jurídica e social deve insistir a autoridade pública; e fá-lo-á com menos dificuldade se se desembaraçar daqueles encargos, que já antes declaramos não serem próprios dela” (Pio XI, Encíclica Quadragesimo Anno, 15 de Maio de 1931).

“16. Para explicar melhor como o comunismo conseguiu das massas operárias a aceitação, sem exame, de seus erros, convém recordar que estas massas operárias estavam já preparadas para ele pelo miserável abandono religioso e moral a que as havia reduzido, na teoria e na prática, a economia liberal. Com turnos de trabalho, inclusive dominicais, não se deixava tempo ao operário para cumprir suas mais elementares deveres religiosos nos dias festivos; não se teve preocupação alguma para construir Igrejas junto às fábricas nem para facilitar a missão do sacerdote; ao contrário, se continuava promovendo positivamente o laicismo. Se recolhem, portanto, agora, os frutos amargos de erros denunciados tantas vezes por nossos predecessores e por Nós mesmos (…)”. (Pio XI, Encíclica Quadragesimo Anno, 15 de Maio de 1931).

Pio XII

“As exigências da concorrência, que é uma consequência normal da liberdade e engenhosidade humana, não deve ser a norma final da economia” (Pio XII, Discurso aos participantes do congresso internacional da fundação técnica, 28 de Setembro de 1954).

“Igualmente cega é a confiança quase supersticiosa no mecanismo do mercado mundial para equilibrar a economia, como a de quem a fiam a um Estado providencia encarregado de procurar a todos seus súditos, e em todas as circunstâncias da vida, o direito a satisfazer exigências, ao fim das contas, irrealizáveis” (Discurso ao Congresso Internacional de Estudos Sociais, 3 de junho de 1950).

“Por outro lado, ganha terreno a concepção que é da economia, e em particular de uma forma sua específica, que é o livre-comércio, que se deve esperar a solução do problema da paz.

Tivemos outra vez a ocasião de expor o erro de tal doutrina. E mais ou menos cem anos atrás os sequazes do sistema de livre comércio esperavam dele coisas maravilhosas, vendo nisso um poder quase mágico. Um de seus mais ardentes prosélitos não duvidava em comparar o princípio do livre-comércio, na medida dos efeitos no mundo moral, ao princípio da gravidade que rege o mundo físico, assinalando-lhe, como efeito próprio, a aproximação dos homens, o desaparecimento do antagonismo baseado em raça, fé, língua, e a unidade de todos os seres humanos numa paz inalterável.

O curso dos eventos demonstrou quanto é enganosa a ilusão de confiar na paz só pelo livre-comércio. Não será diferente no futuro, se se insiste nesta fé cega que dá a economia uma forma mística imaginária” (Radiomessaggio a tutto il mondo in occasione del Natale, 24 dicembre 1954).

Paulo VI

“26. Infelizmente, sobre estas novas condições da sociedade, construiu-se um sistema que considerava o lucro como motor essencial do progresso econômico, a concorrência como lei suprema da economia, a propriedade privada dos bens de produção como direito absoluto, sem limite nem obrigações sociais correspondentes. Este liberalismo sem freio conduziu à ditadura denunciada com razão por Pio XI, como geradora do “imperialismo internacional do dinheiro”” (Paulo VI, Encíclica Populorum Progressio, no.26).

João Paulo II

“40. É tarefa do Estado prover à defesa e tutela de certos bens coletivos como o ambiente natural e o ambiente humano, cuja salvaguarda não pode ser garantida nos simples mecanismos de mercado. Como nos tempos do antigo capitalismo, o Estado tinha o dever de defender os direitos fundamentais do trabalho, assim diante do novo capitalismo, ele e toda sociedade têm a obrigação de defender os bens coletivos que, entre outras coisas, constituem o enquadramento dentro do qual cada um poderá conseguir legitimamente os seus fins individuais.

Acha-se aqui um novo limite do mercado: há necessidades coletivas e qualitativas, que não podem ser satisfeitas através dos seus mecanismos; existem exigências humanas importantes, que escapam à sua lógica; há bens que, devido à sua natureza, não se podem nem se devem vender e comprar. Certamente os mecanismos de mercado oferecem seguras vantagens: ajudam, entre outras coisas, a utilizar melhor os recursos, favorecem o intercâmbio dos produtos e, sobretudo, põem no centro a vontade e as preferências da pessoa que, no contrato, se encontram com as de outrem. Todavia eles comportam o risco de uma “idolatria” do mercado, que ignora a existência de bens que, pela sua natureza, não são nem podem ser simples mercadoria” (João Paulo II, Centesimus Annus, 1 de Maio de 1991).

Refutação de “a Igreja condenou o capitalismo”. A favor do capitalismo intrinsecamente, e contra seus abusos

Antes de tudo, é preciso notar como tem sido alvo de confusão o termo “capitalismo”. A verdadeira definição desse sistema é a dada pela Igreja. Isto nenhum católico pode negar sem causar uma torre de Babel e negar a definição da Santa Igreja, o que é, no fundo, negar a própria autoridade Eclesiástica de definir o que é certo ou errado. Assim prova Pio XI citando Leão XIII:

“Mas antes de entrarmos neste assunto, devemos pressupor, o que já provou abundantemente Leão XIII, que julgar das questões sociais e econômicas é dever e direito da Nossa suprema autoridade” (Pio XI, Encíclica Quadragesimo Anno, 15 de Maio de 1931, número II).

Duas definições errôneas de capitalismo dadas pela Revolução: a marxista-igualitária e a liberal

Os valores metafísicos da Revolução, sabemos, é o liberalismo, oriundo de um sensualismo, e o igualitarismo, oriundo do orgulho. Isto é explicado por Plinio Corrêa de Oliveira no livro “Revolução e Contra-Revolução”, Capítulo VII, que ali argumenta que o “movimento socialista é um mero requinte do movimento liberal”, dado que “o liberalismo é fruto da mesma árvore que o igualitarismo”. Necessário, notar, com o autor, que “o direito de pensar, sentir e fazer tudo quanto as paixões desenfreadas exigem, é a essência do liberalismo”.

Ora, Marx e seus sequazes definiram o capitalismo como a preponderância absoluta do capital sobre o trabalho. Então todo capitalista necessariamente seria um explorador do trabalho do operário, buscando indefinidamente lucros para si, de modo egoísta (o capitalista de Marx seria um liberal no sentido apontado por Dr.Plinio).

Daí a acusação de muitos ditos “anti-capitalistas”, os quais muitos, embora não materialistas como Marx, acusam o capitalismo de materialista, quando, ironicamente, baseiam-se em uma definição de um materialista, que inventou-a exatamente para denegrir o verdadeiro significado de capitalismo, e propor o socialismo, os quais muitos “anti-capitalistas” rejeitam. Do outro lado, alguns liberais trabalham para identificar o capitalismo com o liberalismo econômico, dando este mesmo significado marxista ao regime, mas mudando a atitude para com ele, quer dizer, elogiando-o. Em suma: tanto o liberal quanto o igualitário, por serem fruto da Revolução, contribuem para a falsa concepção de capitalismo, entre eles só há diferença de juízo sobre a concepção.

Definição da Igreja

Capitalismo é aquele regime em que o capital concorre com um elemento próprio para a produção, ao lado do trabalho; em que se atribui uma parte do lucro ao capital e se atribui uma parte do lucro ao trabalho. Este regime em si, isto é, intrinsecamente, não é condenável, mas pode se prestar a abusos.

-Papas a favor do Capitalismo em si, sem os abusos

São Pio X resumindo a doutrina de Leão XIII, exorta os capitalistas à virtude, mas não os condena, porque não é em si condenável, ao contrário do que ocorre com os socialistas, dos quais segundo os Papas “ninguém pode ser bom católico e socialista”.

“VIII – Os capitalistas e os patrões têm as seguintes obrigações de justiça: pagar o justo salário aos operários; não causar prejuízo às suas justas economias, nem por violências, nem por fraudes, nem por usuras evidentes ou dissimuladas; dar-lhes liberdade de cumprir os deveres religiosos; não os expor às seduções corruptoras e aos perigos do escândalo; não os desviar do espírito de família e do amor da economia; não lhes impor trabalhos desproporcionados às suas forças ou pouco convenientes para a idade ou para o sexo (Rerum Novarum)”. (São Pio X, Motu Proprio, Fin Dalla Prima Nostra, 18 de Dezembro de 1903. Actes de S.S. Pie X, Bonne Presse, Paris, tomo I, pp. 109-110)

Pio XI citando Leão XIII

“Sabeis, veneráveis Irmãos e amados Filhos, que o Nosso Predecessor de feliz memória na sua encíclica se referia principalmente àquele sistema, em que ordinariamente uns contribuem com o capital, os outros com o trabalho para o comum exercício da economia, qual ele próprio a definiu na frase lapidar: “Nada vale o capital sem o trabalho, nem o trabalho sem o capital”.

Foi esta espécie de economia, que Leão XIII procurou com todas as veras regular segundo as normas da justiça; donde se segue que de per si não é condenável. E realmente de sua natureza não é viciosa: só então viola a recta ordem, quando o capital escraviza aos operários ou à classe proletária com o fim e condição de que os negócios e todo o andamento econômico estejam nas suas mãos e revertam em sua vantagem, desprezando a dignidade humana dos operários, a função social da economia e a própria justiça social e o bem comum” (Pio XI, Encíclica Quadragesimo Anno, 15 de Maio de 1931).

Pio XII

“Todo espírito reto deve reconhecer que o regime econômico do capitalismo industrial contribuiu para tornar possível, e até estimular o progresso do rendimento agrícola; que ele permitiu, em inúmeras regiões do mundo, elevar a um nível superior a vida física e espiritual da população do campo. Não é, pois, o regime em si mesmo que se deve acusar, mas o perigo que ele faria correr caso sua influência viesse alterar o caráter específico da vida rural, assimilando-a à vida dos centros urbanos e industriais, fazendo do “campo”, tal como é entendido aqui, uma simples extensão ou anexo da “cidade”.

Essa prática, e a teoria que a apoia, é falsa e nociva” (Pio XII, Discurso de 2 de julho de 1951, ao 1º Congresso Internacional sobre os Problemas da Vida Rural, “Discorsi e Radiomessaggi”, Vol. XIII, págs. 199-200).

João Paulo II

“Voltando agora à questão inicial, pode-se porventura dizer que, após a falência do comunismo, o sistema social vencedor é o capitalismo e que para ele se devem encaminhar os esforços dos Países que procuram reconstruir as suas economias e a sua sociedade ? É, porventura, este o modelo que se deve propor aos Países do Terceiro Mundo, que procuram a estrada do verdadeiro progresso econômico e civil ?

A resposta apresenta-se obviamente complexa. Se por ‘capitalismo’ se indica um sistema econômico que reconhece o papel fundamental e positivo da empresa, do mercado, da propriedade privada e da consequente responsabilidade pelos meios de produção, da livre criatividade humana no setor da economia, a resposta é certamente positiva, embora talvez fosse mais apropriado falar de ‘economia de empresa’, ou de ‘economia de mercado’, ou simplesmente de ‘economia livre’. Mas se por ‘capitalismo’ se entende um sistema onde a liberdade no setor da economia não está enquadrada num sólido contexto jurídico que a coloque ao serviço da liberdade humana integral e a considere como uma particular dimensão desta liberdade, cujo centro seja ético e religioso, então a resposta é sem dúvida negativa” (João Paulo II, Centesimus Annus, 1 de Maio de 1991, no.42).

-Objeções refutadas

Objeção da CNBB em documento pró-reforma agráriaPio XII denuncia o capitalismo agrário que expulsa do campo os humildes agricultores forçados a abandonar sua terra em troca de ilusões e frustrações no meio urbano: “O capital se apressa a apoderar-se da terra (…) que se torna, assim, não mais objeto de amor, mas de fria especulação. A terra, nutriz generosa das populações urbanas, como das populações camponesas, passa a produzir apenas para esta especulação e enquanto o povo sofre fome, o agricultor oprimido de dívidas, caminha lentamente para a ruína, a economia do país se esgota, para comprar a preços elevados o abastecimento que se vê obrigada a importar do exterior” (“Al particolare compiacimento”. Alocução aos membros do Congresso da Confederação Italiana dos Agricultores, 15 de novembro de 1946, no. 14).

Resposta de Dr.Plinio no livro “Sou Católico: posso ser contra a reforma agrária ?”: O IPT expõe mal a doutrina do Pontífice, ao lhe atribuir um pensamento que não é o seu. Com efeito, no trecho em referência, Pio XII põe de alerta os agricultores contra a sedução da vida urbana que induzia muitos a abandonarem suas terras; em conseqüência disto, o capital se assenhorearia das terras abandonadas, que trataria de modo frio e sem amor: “Esta terra, ASSIM ABANDONADA, o capital se apressa em fazê-la sua” (Discorsi e Radiomessaggi di Sua Santità Pio XII, Tipografia Poliglotta Vaticana, vol. VIII, p. 307).

Objeção com a encíclica de Leão XIII: O Papa condena o liberalismo, que nada mais é do que o capitalismo. “Tal é a pretensão dos sectários do Liberalismo, de que Nós falamos: não há, na vida prática, nenhum poder divino ao qual se tenha de obedecer, mas cada um é para si sua própria lei. Daí procede essa moral que se chama independente, e que, sob a aparência da liberdade, afastando a vontade da observância dos preceitos divinos, conduz o homem a uma licença ilimitada” (Leão XIII, Libertas Praestantissimum, Sobre a liberdade humana, 20 de junho de 1888).

Resposta: A condenação do liberalismo é justa e não é Leão XIII o primeiro Papa a declará-la. Nesta encíclica condena-se também a liberdade religiosa, fruto deste liberalismo, e infelizmente uma condenação esquecida no tempo pós-conciliar. No entanto, condenar o liberalismo não é condenar o capitalismo, visto que este é meramente o regime em que o capital concorre com um elemento próprio para a produção, ao lado do trabalho; em que se atribui uma parte do lucro ao capital e se atribui uma parte do lucro ao trabalho. Logo, esta relação não implica liberalismo, embora o liberalismo possa abusar desta relação, então seria o maléfico liberalismo econômico.

O mesmo Pontífice é citado por Pio XI como não tendo condenada o capitalismo em si, mas desejado regulá-lo, o que não se pode fazer com algo essencialmente ruim como o liberalismo: “Foi esta espécie de economia, que Leão XIII procurou com todas as veras regular segundo as normas da justiça; donde se segue que de per si não é condenável” (Pio XI, Encíclica Quadragesimo Anno, 15 de Maio de 1931).

Objeção da Encíclica de Pio XI: Ali é condenado o capitalismo: “Mas o regime capitalista da economia, desde a publicação da “Rerum novarum”, com o propagar-se da indústria alastrou em todas as direções, de tal maneira que se infiltrou e invadiu completamente todos os outros campos da produção, cujas condições sociais e econômicas afeta realmente e informa com suas vantagens, desvantagens e vícios.

Por consequência não é só o bem dos habitantes das regiões industriais, mas o de todos os homens, que Nós procuramos, ao dirigirmos a Nossa atenção principalmente para as mudanças, que sofreu a economia capitalista desde os tempos de Leão XIII.

É coisa manifesta, como nos nossos tempos não só se amontoam riquezas, mas acumula-se um poder imenso e um verdadeiro despotismo econômico nas mãos de poucos, que as mais das vezes não são senhores, mas simples depositários e administradores de capitais alheios, com que negociam a seu talante. Este despotismo torna-se intolerável naqueles que, tendo nas suas mãos o dinheiro, são também senhores absolutos do crédito e por isso dispõem do sangue de que vive toda a economia, e manipulam de tal maneira a alma da mesma, que não pode respirar sem sua licença. Este acumular de poderio e recursos, nota característica da economia atual, é consequência lógica da concorrência desenfreada, à qual só podem sobreviver os mais fortes, isto é, ordinariamente os mais violentos competidores e que menos sofrem de escrúpulos de consciência. Por outra parte este mesmo acumular de poderio gera três espécies de luta pelo predomínio : primeiro luta-se por alcançar o predomínio econômico; depois combate-se renhidamente por obter predomínio no governo da nação, a fim de poder abusar do seu nome, forças e autoridade nas lutas econômicas; enfim lutam os Estados entre si, empregando cada um deles a força e influência política para promover as vantagens econômicas dos seus cidadãos, ou ao contrário empregando as forças e predomínio econômico para resolver as questões políticas, que surgem entre as nações” (Pio XI, Encíclica Quadragesimo Anno, 15 de Maio de 1931).

Resposta: Nesta parte da encíclica “Quadragesimo Anno”, o Papa fala do individualismo econômico ou do liberalismo econômico, que são abusos feitos no regime capitalista, mas não erros intrínsecos deste regime. Tanto que mais acima o Pontífice diz: Foi esta espécie de economia, que Leão XIII procurou com todas as veras regular segundo as normas da justiça; donde se segue que de per si não é condenável”. E logo depois do trecho destacado diz: “As últimas consequências deste espírito individualista no campo econômico são essas que vós, veneráveis Irmãos e amados Filhos, vedes e lamentai (…)”. Ora, ele não falaria que é uma consequência do espírito individualista, e sim do espírito capitalista, caso quisesse condenar o regime em si.

Objeção da encíclica e da alocução de Pio XII: O Papa condena o capitalismo nas duas coisas: “Outros, porém, se mostram tímidos e incertos quanto ao sistema econômico conhecido pelo nome de capitalismo, do qual a Igreja não tem cessado de denunciar as graves consequências. A Igreja, de fato, apontou não somente os abusos do capital e do próprio direito de propriedade que o mesmo sistema promove e defende, mas tem igualmente ensinado que o capital e a propriedade devem ser instrumentos da produção em proveito de toda a sociedade e meios de manutenção e de defesa da liberdade e da dignidade da pessoa humana. Os erros dos dois sistemas econômicos e as ruinosas consequências que deles derivam devem a todos convencer, e especialmente aos sacerdotes, a manter-se fieis à doutrina social da Igreja e a difundir-lhe o conhecimento e a aplicação prática” (Pio XII, Encíclica Menti Nostrae, 23 de Setembro de 1950).

“E que tal um regime em que o capitalismo é dominante ? Ele oferece uma ocasião de verdadeiro bem-estar para a mulher ? Nós não temos necessidade de descrever aqui as consequências econômicas e sociais desse sistema. Conhecemos seus sinais característicos e vós trabalhastes sobre o fardo que ele impõe: o excessivo povoamento nas cidades, os sempre crescentes e invasivos poderes dos grandes negócios, a dificuldade e a condição precária de outras indústrias, especialmente o artesanato e mais especialmente a agricultura, a propagação inquietante de desemprego” (Questa Grande Vostra Adunata, Deveres da mulher na vida política e social, Alocução de Sua Santidade Pio XII, aos membros de vários associações de mulheres católicas, 21 de Outubro de 1945).

Resposta: A questão da condenação do capitalismo na “Menti Nostrae” é fruto de uma confusão de tradução, visto que no latim não é mencionado o nome “capitalismo”, mas sim do “sistema que encontra seu nome pela excessiva acumulação de bens privados”. Em latim: “Ex alia vero parte non desunt qui se pavidos atque incertos ostendant, ad oeconomicam illam rationem quod attinet, quae a nimio privatarum divitiarum congestu nomen invenit”.

Devido à tradução italiana publicada no “L’Osservatore Romano” usar a palavra “capitalismo”, enquanto a versão latina não a tinha, o “N.C.W.C. News Service” pediu uma explanação precisa do significado da frase em Latim. Mons.Antonio Bacci, secretário do Secretariado Vaticano para Breves aos Príncipes e Cartas Latinas, disse que o que o significado da frase em latim era “capitalismo excessivo ou exagerado”. Mons.Bacci dirigia o Secretariado incumbido de preparar em Latim os documentos para ele pelo Papa.

Sendo assim, fica óbvio no sentido que o Papa fala do abusos do capitalismo, e não do regime em si, caso contrário não faria sentido em falar de seus excessos com a palavra “capitalismo excessivo ou exagerado”.

A Alocução de Pio XII aos membros das associações católicas no dia 21 de Outubro de 1945 fala no mesmo sentido em que a Igreja fala sobre o capitalismo: seus abusos são reprováveis. Não temos em mãos a versão na língua original, mas pode-se ver pelas palavras que o Pontífice fala do “capitalismo excessivo”, isto é, “onde o capitalismo é dominante”.

O mesmo Pontífice fala a favor do capitalismo em si em outro lugar: “Todo espírito reto deve reconhecer que o regime econômico do capitalismo industrial contribuiu para tornar possível, e até estimular o progresso do rendimento agrícola; que ele permitiu, em inúmeras regiões do mundo, elevar a um nível superior a vida física e espiritual da população do campo. Não é, pois, o regime em si mesmo que se deve acusar, mas o perigo que ele faria correr caso sua influência viesse alterar o caráter específico da vida rural, assimilando-a à vida dos centros urbanos e industriais, fazendo do “campo”, tal como é entendido aqui, uma simples extensão ou anexo da “cidade”.

Essa prática, e a teoria que a apoia, é falsa e nociva” (Pio XII, Discurso de 2 de julho de 1951, ao 1º Congresso Internacional sobre os Problemas da Vida Rural, “Discorsi e Radiomessaggi”, Vol. XIII, págs. 199-200).

Objeção do Catecismo de João Paulo II: O Papa rejeita o capitalismo no seguinte trecho: “A Igreja rejeitou as ideologias totalitárias e ateias, associadas, nos tempos modernos, ao “comunismo” ou ao “socialismo”. Por outro lado, recusou, na prática do “capitalismo”, o individualismo e o primado absoluto da lei do mercado sobre o trabalho humano. Regular a economia só pela planificação centralizada perverte a base dos laços sociais: regulá-la só pela lei do mercado é faltar à justiça social, “porque há numerosas necessidades humanas que não podem ser satisfeitas pelo mercado”. É necessário preconizar uma regulação racional do mercado e das iniciativas econômicas, segundo uma justa hierarquia dos valores e tendo em vista o bem comum” (João Paulo II, Catecismo da Igreja Católica, 2425).

Resposta: Não há uma rejeição do capitalismo em si, mas sim “na prática” dele, há uma rejeição do “individualismo” e do “primado absoluto da lei do mercado sobre o trabalho humano”. O individualismo mencionado nada mais é do que o liberalismo na economia, e nas relações sociais, levando a diversos vícios.

O mesmo Pontífice dá a definição de capitalismo apoiada pela Igreja: “Se por ‘capitalismo’ se indica um sistema econômico que reconhece o papel fundamental e positivo da empresa, do mercado, da propriedade privada e da consequente responsabilidade pelos meios de produção, da livre criatividade humana no setor da economia, a resposta é certamente positiva, embora talvez fosse mais apropriado falar de ‘economia de empresa’, ou de ‘economia de mercado’, ou simplesmente de ‘economia livre” (João Paulo II, Centesimus Annus, 1 de Maio de 1991, no.42).