História das Revoluções Monetárias. A 4ª fase: Banco central

Os espíritos mais argutos verão neste trabalho de conclusão de curso que entreguei ano passado (2021) um pano de fundo católico tradicionalista contra-revolucionário, e sobretudo mais do que um intuito teórico.

Sumário, introdução e 1ª fase: ASCENSÃO DO EXPANSIONISMO MONETÁRIO

2ª Fase: RESERVA FRACIONÁRIA LEGAL

3ª Fase: DESMONTE DO PADRÃO-OURO NO OCIDENTE

4ª FASE: BANCO CENTRAL

CONCLUSÃO E BIBLIOGRAFIA COMPLETA

4        A 4ª FASE DA REVOLUÇÃO MONETÁRIA: BANCO CENTRAL

4.1        TRANSFORMAÇÕES ECONÔMICO-SOCIAIS ATÉ A HEGEMONIA DO BANCO CENTRAL MODERNO NO OCIDENTE DURANTE O SÉCULO XX

Como visto até aqui, o padrão-ouro sofreu duras pancadas durante o século XX, principalmente no período da primeira à segunda guerra mundial, e recebeu seu tiro de misericórdia em 1971 no contexto do fim do acordo de Bretton Woods, quando os EUA eram o último país a manter a paridade dólar-ouro. Já foi citada aquela frase de Keynes sobre o status daquela moeda como figurativa no seu tempo: talvez “não precisássemos proclamar uma República”. Não foi proclamada nenhuma república, mas uma ditadura sanguinária do valor real foi introduzida no ocidente desde a primeira guerra mundial: uma palavra nova, “hiperinflação”, surgiu, e nunca houve tantos problemas inflacionários como no século XX. Primeiro, os países desenvolvidos sofreram; mais tarde, foram os países periféricos.

Este tópico versa sobre como o Banco Central criou raízes tão profundas a ponto de fixar a primeira fase da revolução monetária institucionalizada pela segunda, a Reserva Fracionária, impedindo a corrida aos bancos, ainda mais temível após a vitória da terceira fase da revolução no Ocidente: a fim da paridade da moeda nacional com o ouro.

Portanto, este tópico não se foca, senão muito paralelamente, sobre as outras funções típicas de autoridade monetária que o Banco Central costuma absorver, dependendo do país: fiscalizador do mercado bancário, regulador das instituições financeiras e detentor de reservas internacionais. Multisseculares, tais funções antes eram exercidas por diversas entidades vinculadas ao poder público. À medida que se complexava a sociedade e suas profissões, exigiu-se reguladores e supervisores especializados, de acordo com as necessidades locais de cada país.

No contexto cronológico, é possível afirmar, pelo visto até aqui, que de todo o ocidente, os EUA foram os únicos a seguirem trajetória diversa do resto do mundo: primeiro criaram uma autoridade monetária como o Banco Central, o Federal Reserve no início do século XX. E após períodos breves de abandono do padrão-ouro, voltaram a emprega-lo após o fim da segunda guerra mundial até 1971. O resto do ocidente quase inteiramente, se não inteiramente, abandonou a paridade com o ouro no contexto das guerras e a grande depressão, como amplamente demonstrado no tópico anterior.

Ora, isso se confere pela importante disposição, que pode ser organizada em ordem cronológica, da “Lista dos Bancos Centrais” na Wikipedia Italiana (LISTA DELLE BANCHE CENTRALI, 2021): a maior parte foram criados em meados do século XX, quando o padrão-ouro já desaparecera de quase todo o globo (esta investigação pôde rastrear pelo menos uns oitenta bancos centrais, de um total de mais de cento e vinte, após a segunda guerra mundial).

Esta seção usará, em larga medida, do estudo de Stefano Ugolini sobre a evolução da prática bancária central, que é a melhor tradução possível para “The Evolution of Central Banking: Theory and History” (2017), uma vez que o autor diferencia “história da evolução dos Bancos Centrais e teoria subjacente” de “história da evolução do Central Banking e teoria subjacente”. “Central Banking” é um termo de difícil tradução ao português. Atividade bancária ou prática bancária talvez fossem as melhoras formas de compreendê-lo na língua de Camões.

Se Ugolini resolve diferenciar ambos os assuntos por não encontrar uma definição satisfatória de “Banco Central”. A proposta deste trabalho tenta contornar essa encruzilhada ao apontar um processo histórico multissecular que se desdobra, na seara da economia monetária, em revoluções que mudam a estrutura prática do mundo financeiro e monetário.

Nesta seção, defende-se o enquadramento de banco central como produto da quarta revolução monetária. E, portanto, “Reserva Federal” (como é dito nos EUA: Federal Reserve), “autoridade monetária”, e outros nomes serão tipicamente um “Banco Central”, enquanto exibam as seguintes características:

1. Fiador da reserva fracionária legal (2ª Revolução Monetária)
2. Instrumento de controle monetário, preferencialmente expansionista (1ª Revolução Monetária)
3. Alquimista do título público (subproduto da 3ª Revolução Monetária)

Apesar de o nome “Banco Central” ser antigo, a razão de sua escolha é clara: o banco central, com as características enumeradas, apareceu somente no século XX, como reforçado pela lista disponível da Wikipedia de língua italiana já mencionada. Suas características serão explicadas nas seções seguintes.

4.1.1        Banco Central, fiador da reserva fracionária

Embora a instituição seja mais ou menos recente no decurso da modernidade, Ugolini rastreou sua defesa até a Veneza do século XVI, quando sugerida sob a forma de um banco público que, enquanto garantisse a nova prática bancária, remediasse os problemas sociais gerados pelas mesmas práticas bancárias. Tal descoberta é mais um dedo apontado à boa escolha do marco histórico de onde parte este trabalho: aquele que se identifica quase perfeitamente com a noção mais popularizada de “mundo moderno” na sociologia contemporânea. Afinal, em tal século as novas forças motrizes do homem estavam a todo vapor, e principalmente na Itália.

Entende-se como aquela prática bancária nova da 1ª fase da revolução monetária não podia, segundo a mentalidade social vigente, ser objeto de reforma. Reconhecer tal erro equivaleria a interromper um processo histórico de separação total da atualidade com a moralidade social vigorante antes do século XIV. No mínimo, isso obrigaria a estrutura bancária a assumir um papel dentro do sentido jurídico clássico (no direito romano) do contrato de depósito bancário.

Assim cita Ugolini (2017, C. 3, p. 101 apud LATTES, 1869, p. 118):

“Temos um número de exemplos recentes na nossa memória (ou melhor, ante os nossos olhos) do tumor e grande dano que a falência dos bancos tem infligido nesta cidade. Casas nobres e luxuosas foram degradadas e extintas; muitos cidadãos foram reduzidos à extrema pobreza ou muito atingidos; mulheres solteiras ficaram sem dote, viúvas sem subsídio, órfãs sem sustento; os comerciantes ficaram enfraquecidos, os negócios desordenados e as receitas públicas diminuídas. […] O que não acontece sem desacreditar um tanto o Estado: visto que os bancos foram autorizados por decreto e são continuamente supervisionados por um órgão especificamente designado e a isto integralmente dedicado, leva-se a crer que acidentes e falências não poderiam se desenvolver sem que a administração pública o soubesse”.

(Tommaso Contarini, Discurso ao Senado Veneziano, 28 de dezembro de 1584)

Avançando um pouco no tempo, ao início do século XIX, o Banco Central como emprestador de última instância, isto é, como fiador da reserva fracionária, já vinha sendo defendido, como visto na investigação do prof. Huerta de Soto, como justificativa ex-post, isto é, razão dada para algo já existente.

Ilustrativo exemplo foi Walter Bagehot que, em 1873, como resposta à quebra do “Overend, Gurney and Company”, esboça algumas regras para o empréstimo aos bancos privados para evitar pânico que havia sacudido a Inglaterra naquele tempo.

Ugolini o cita abundantemente no calor da discussão acerca da necessidade de reservas que um banco deveria ter (talvez um remoto precursor do compulsório bancário, hoje predominante na política bancária do ocidente): “a introdução de requerimentos de reserva, entretanto, foi ferozmente resistida pelos lobistas bancários, e nunca adotada até mais ou menos 1960, enquanto as “regras de Bagehot” foram tacitamente aceitas pelo Banco desde pelo menos os anos de 1870” (2017, p. 140-141).

Franco (2017, p. 309) nota como um dos critérios para a definição de um Banco Central, segundo a avaliação de Charles Goodhart, Forrest Capie e Norbert Schnadt, “seria a atuação dessas instituições como “emprestadoras de última instância”, prática bem mais difícil de se documentar, mas que, segundo esses autores, teria ocorrido, na maior parte dos bancos centrais “precursores”, nos anos 1870 e 1880.”

No entanto, a observação prática de Bagehot e a história declaram, como noticiado aqui, que décadas anteriores já davam a função de fiador da reserva fracionária para o Banco Central ou instituição análoga (afinal, não havia ainda um Banco Central nas características mencionadas).

E para sacramentar o uso desse aspecto de um “Banco Central” no processo das revoluções monetárias, Ugolini nota como a palavra “emprestador de última instância” (lender of last resort) foi alcunhada nos anos de 1930 por Ralph Hawtrey, um influente intelectual na obra de Keynes e nos círculos de Cambridge (2017, p.108), embora o termo possa ser rastreado até 1797.

Keynes e os Keynesianos terão suas respectivas magnitudes de influência nas “revoluções monetárias” algumas seções mais adiante.

4.1.2        Banco Central, instrumento de controle monetário (preferencialmente expansionista)

É notório que o Banco Central, ou a autoridade monetária análoga, controla a política monetária nacional a fim de estabilizar os preços. E se o faz mediante política contracionista e expansionista, por que caracterizá-lo preferencialmente como instrumento de afrouxamento monetário?

A resposta parece residir numa simples análise da diferença entre inflação e deflação: a primeira favorece os devedores, e a segunda, os poupadores.

Como o manejo da dívida pública é uma das três partes integrantes do Banco Central, como argumentado nesta seção, é vantajoso para o poder público manter sempre uma inflação, ainda que baixa.

Além disso, há outros fatores sociais e educacionais, como o malefício que traria a deflação, como citado por Sharma (2021): “Tal crença é primariamente um resultado do estudo da Grande Depressão”. Ou seja, como aquele evento é abundantemente estudado, principalmente em meios econômicos, pelo ponto de vista de que a deflação foi um terror, a sua mera ideia causa ojeriza.

Ademais, pode-se intuir que a inflação, dado a estrutura bancária hodierna, é preferível pela razão exposta na seção anterior: dado que os bancos operavam com caixa fracionado, eles não o poderiam fazê-lo sem causar inflação. Ou seja, a fim de manter viva o valor processivo da Revolução Monetária até aqui, não haveria interesse em estimular um igual apreço pela deflação.

Por outro lado, parece claro que em baixos níveis, tanto a inflação, quanto a deflação podem ter seus benefícios e malefícios, mas analisa-los não é objetivo deste trabalho. Com o motivo de arrematar esta seção, basta citar o fato arquinotório que expansionismo monetário no ocidente, desde meados do século XX, tem sido preferível ao contracionismo, bem como a inflação à deflação.

4.1.3        Banco Central, alquimista do título público

Como visto na seção 3, o título público passa, do século XIX ao início do XX, a ser visto como um investimento de longo prazo no governo, ou dito de maneira mais bela, um investimento no “tesouro nacional” (embora alguns países permitam a emissão de dívida pública de entes federados ou seus equivalentes), sem que com isso se julgasse a justeza, ideologia, e índole do governo, sujeitas às mudanças de humores político-sociais. Pululam frases como: “investimento mais seguro” ou “retorno livre de risco” para caracterizar o título público hodierno, seja em qual país for. Imenso contraste com os juízos de economistas como o espanhol Álvaro Florez-Estrada, que viveu do século XVIII ao XIX:

“Deve-se inferir, do que acabamos de dizer, que só o hábito da profusão e a carência de conhecimentos econômicos têm podido impedir que o sistema de empréstimos públicos [N.T: o autor os chama de empréstitos] inspire toda a aversão que merece. Uma dívida nacional, se não é amortizada em poucos anos, não apresenta outra alternativa, como afirma Hume, senão a decadência da nação ou a bancarrota do governo. Ainda que deixássemos de lado os demais corolários, bastaria o terceiro para que todas as almas generosas mirassem os empréstitos com suma indignação”.

(FLOREZ-ESTRADA, 1835, P. 504)

Tais corolários são os males que o sistema citado ocasiona, que aqui são enumerados do primeiro ao sexto (Florez-Estrada fornece dezoito), para não mencionar só até o terceiro: “1º – arrastra os governos à prodigalidade, 2º – produz guerras injustas, 3º contribui para consolidar o despotismo, 4º fomenta a imoralidade, 5º – impede que as contribuições sejam repartidas com igualdade, 6º – exime de todo imposto a renda das classes mais ricas” (FLOREZ-ESTRADA, 1835, P. 502)

Embora as razões elencadas por Florez-Estrada ultrapassem o escopo deste trabalho, é fácil identificar, no contexto brasileiro atual, como o sexto é evidente, pois um país que aufere muita renda de títulos públicos tende a ver como desnecessários os impostos maiores nas rendas daqueles com maior capacidade de contribuição (considerando, é claro, adequado e razoável teto para o fim da alíquota progressiva, ou como alguns argumentam, um imposto digressivo).

Tal diagnóstico se coaduna com a realidade econômica nacional brasileira, por exemplo, embora seja provável que se mantenha bem similar na maioria dos países do ocidente.

Segundo a tabela 2, desde 2015 a dívida pública federal mobiliária pertenceu, no mínimo, ao grupo dos 60%: instituições financeiras, fundos de investimento e fundos de previdência. É claro que nesses grupos não figuram as classes menos abastadas, de forma que a 6ª crítica de Florez-Estrada se aplica: o poder público não quererá arrecadar mais via tributação na renda se o mesmo fluxo já lhe é dado por empréstimos públicos.

Tabela 2 – Detentores da Dívida Pública Federal Brasileira

Fonte: BRASIL, 2021, P. 7.

Além disso, para categorizar o Banco Central como revolução monetária é preciso notar a terceira característica dessa instituição: a condução da política monetária via manejo sagaz do papel do tesouro nacional, como demonstrado na seção anterior.

Quanto ao termo “alquimista do título público”, à primeira vista pejorativo: foi alcunhado aqui meramente para lembrar o fato de que o título público, à medida que derretia o padrão-ouro global e se operava uma silenciosa mudança social no uso do título público, se tornava o novo aparato pelo qual a autoridade monetária injetava liquidez (comprando título público previamente emitido) ou a retinha (vendendo título público), isto é, os instrumentos de controle monetário conhecidos atualmente como expansionista e contracionista, respectivamente.

Aliás, não é novo o uso do termo alquimia para certas manobras financeiras, pois salienta Gustavo Franco, em seu livro sobre a história monetária brasileira, ao explicar o contexto da moeda fiduciária: “a criação de moeda no interior dos bancos, através da velha mas constantemente reinventada alquimia de expansão do balanço” (FRANCO, 2017, p. 736).

Além disso, Franco também cita o presidente do Banco da Inglaterra, Mervyn King, segundo o qual, de fato, o papel-moeda não era mais que “alquimia financeira”: “Por alquimia eu entendo a crença de que todo papel-moeda pode ser transformado à vista em mercadorias com valor intrínseco, como ouro, e que o dinheiro que está guardado em bancos pode ser retirado no momento em que o depositante o solicitar (..). Por séculos, a alquimia foi a base de nosso sistema de moedas e bancos” (KING, 2016, p.5 apud FRANCO, 2017, Cap. 2, nota 86).

Se King e Franco tipificam como alquimia o processo pelo qual um valor intrínseco é criado, segue que, sendo a dívida pública interna o novo meio pelo qual o valor intrínseco almejado é impactado, o Banco Central é o alquimista do título público. Mas não é alçada deste trabalho saber se este, na estrutura monetária atual, alcançou de fato a pedra filosofal da vida eterna mediante indefinido crescimento da dívida pública interna mundial.

4.2        DIVERGÊNCIAS TEÓRICAS NA ÉPOCA DESTA REVOLUÇÃO MONETÁRIA

Ao longo do tempo, percebe-se que, conforme avança uma revolução monetária, cada vez mais o número de seus contestadores diminui, e quando há oposição, esta aparenta ser mera divergência que ruma ao consentimento geral, uma vez que os debatedores não possuem substancial discordância.

Não diferente foram as divergências mais publicizadas sobre questões ao redor do Banco Central, como modernamente constituído: muitas vezes o debate público parece meramente girar em torno da necessidade ou não de sua independência. Argumentos anêmicos aparentam robustos quando se evoca o quanto a história e a prática endossaram a prática bancária nova, embora não se possa retroceder muito na história, isto é, não há antecedentes antes do marco temporal de que parte este trabalho (o que parece ser mais uma prova de sua boa escolha).

Nesse contexto, um autor que vale a pena ser avaliado pelas suas visões acerca do futuro do setor bancário na Era digital, Jonathan McMillan, parece argumentar na linha de que, há muito tempo, bancos não são meros custodiantes, pois possuem intenção explícita de emprestar: “Como depositante, você empresta dinheiro ao banco: você é o emprestador e o banco o tomador. Ele pode usar o dinheiro que você depositou para qualquer propósito que considere adequado, como conceder empréstimos a empresas.” (MCMILLAN, 2014, P. 25).

Sua argumentação segue a prática da revolução monetária: apelar para as paixões humanas, no caso, para o desejo de dinheiro. Nada mais condizente com a sociologia escolhida para embasar a identificação histórica de mudanças na esfera monetária, que avalia como as mudanças internas do homem moldam a sociedade:

“Evidentemente, para você, como depositante, esse acordo parece menos seguro do que a situação em que o banqueiro apenas guarda suas moedas de ouro no cofre. Por que preferiria um contrato de custódia a um contrato de guarda segura? Os depósitos de custódia têm uma grande vantagem: em vez de pagar pelos serviços de guarda segura, ganha-se juros sobre seu depósito. Isso explica por que os contratos de depósito são tão atraentes e por qual razão as contas de custódia prevaleceram sobre as de guarda”.

(MCMILLAN, 2014, Part one, 1, P.25)

Historicamente, assim a prática dominou o ocidente desde a Era moderna. Então, parece desimportante o fato de a prática ser justa ou não, ainda mais com inflação baixa via expansionismo monetário preferencial corroendo o valor da sua poupança, o que obriga socialmente o poupador a “entrar” no negócio. O importante é que a prática criou raízes, e agora só há possibilidades de progredir em cima disso.

Ainda surfando nessa onda progressista alguns agregam que a reserva fracionária, por causa das instituições de controle e complexidades inerentes ao sistema que o circunda, não provam que o valor do dinheiro é deturpado como no passado.

Imagem 1 – Operador ante a máquina de controle da usina nuclear de Baltimore

Fonte: PINTEREST, 1979.

Na imagem anterior se vê uma metáfora da estrutura macroeconômica hodierna: fora o operador da máquina de inúmeros botões, um ou dois devem conhecer todo o aparelho de forma a poder argumentar com dados. Mesmo assim, na realidade a metáfora é bem mais complexa, pois inúmeros operadores mexem na máquina ao mesmo tempo. Prova disso é o quanto os bancos podem modificar seus compulsórios, quanto podem modificar os instrumentos financeiros criadores de liquidez a ponto de dificultar que a verdadeira quantia seja determinada, fenômenos novos como “shadow banking”, o empoçamento de liquidez injetada pela autoridade monetária (e quando este é liberado ao público, o que requer uma vida só de observação), etc.

Tudo isso, além de limitar o debate social somente aos iniciados, parece indicar que reparos em certos botões ou manivelas da máquina não farão diferença na atual circunstância. Por outro lado, saber se a retirada da fonte de energia é ou não a verdadeira solução foge do propósito deste trabalho.

4.2.1        QUANTO À EXISTÊNCIA DO BANCO CENTRAL

Como dito no início desta parte, é objetivo deste trabalho analisar o Banco Central como revolução monetária, isto é, possuindo as características de: 1. Fiador da reserva fracionária legal (típico da 2ª Revolução Monetária), 2. Instrumento de controle monetário, (preferencialmente expansionista, atividade nascente na 1ª Revolução Monetária) e 3. Alquimista do título público (subproduto da 3ª Revolução Monetária).

Ou seja, a mesma instituição monetária, enquanto fiscalizadora, reguladora, detentora de reservas internacionais, geradora de estatísticas nacionais úteis, etc., não é alvo desta análise histórica.

Apesar de haver inúmeras divergências dentro de debates econômicos monetários ou bancários, mesmo dentre em instituições de ensino, as teorias mais propagandeadas nunca discordam sobre um ponto crucial: a necessidade da reserva fracionária e, portanto, de uma autoridade monetária pública como sua fiadora.

Esta seção não objetiva senão noticiar brevemente a existência de divergências quanto à existência de um banco central nos moldes em que foi definido em 4.1.

Antes, é importante salientar que a análise das teorias e propostas econômicas de substituição do Banco Central precisa também passar por criteriosa sondagem de momento político, social e internacional, uma vez que impacta não só a macroeconomia nacional do país que pretende se engajar neste rumo, como a sua política, o estado de sua sociedade diante disso, e as relações internacionais com as quais esta nação pretende se relacionar ou continuar se relacionando na esfera comercial, uma vez que afetar a sua moeda equivale a impactar a taxa de câmbio com outras nações, além de poder haver lobby externo por inúmeros fatores.

Como dito, os únicos que fogem do pensamento mainstream, na seara da economia monetária atual, são o da escola austríaca. E mesmo entre estes, há defensores da reserva fracionária [2].

Já nesta investigação, a revolução monetária não reside somente na defesa da reserva fracionária, mas nas outras características do banco central moderno definidas em 4.1. Se a estrutura macroeconômica ocidental está calcada não só na reserva fracionária, como em um uso específico do título público, bem como no preferencial expansionismo monetário, não parece ser, portanto, suficiente a volta de um padrão-ouro, ainda mais tendo em vista a “imagem-metáfora” inserida na seção anterior: antes do fim do padrão-ouro, já havia inúmeras desconfianças, até mesmo fora do debate econômico, de que o valor do ouro era artificialmente controlado (CORRÊA DE OLIVEIRA, 2008). Evidentemente, o ouro, assim como outra commodity, possui, além de um valor objetivo, um valor subjetivo, e pode ser manipulado, de maneira que indexar toda a economia ao ouro não irá “de alguma maneira ancorar as economias de forma que não possam ser manipuladas por banqueiros e plutocratas” (ZIPPY, 2015).

4.2.2        QUANTO AO MATEMATICISMO NAS ANÁLISES MACROECONÔMICAS

Foram os gregos pagãos que apareceram com o matematicismo, isto é, a idéia que todo o universo pode ser descrito por números. Entre estes, geralmente se encontra os pitagóricos. Posteriormente, na esteira do movimento iluminista, o racionalista Leibniz sustentava mais ou menos o mesmo. Hoje, há inúmeros pensadores que afirmam explicitamente quase a mesma concepção pagã em suas diversas áreas de atuação (como TEGMARK, 2014, que hipotetiza que nosso universo não é simplesmente descrito pela matemática, ele é matemática), embora a vitória do matematicismo veio muito mais pela sua

influência silenciosa, o seu “currículo oculto” como é dito em pedagogia, do que a sobrevivência até o mundo atual.

Afinal, o modo como se ensina economia em muitas instituições até hoje passa a impressão implícita, se não explícita, de que bastam certos modelos e estatísticas confiáveis para prever com precisão diversas variáveis (sem, é claro, deixar de levar em contas os choques imprevisíveis). A infinidade de cadeiras de métodos quantitativos e econométricos que não sofrem divergência por sua exatidão e inclusão até de imprevisibilidades, aliado à inúmeras divergências no campo da teoria econômica, parece apontar para um futuro domínio da técnica e da matemática sobre a teoria econômica, que lhe seria coadjuvante.

A realidade, contudo, parece bem diferente. Se “a arte imita a vida”, o seriado fictício “Billions” (NETFLIX, 2016) artisticamente representa as práticas de um dos mais bem sucedidos Fundos de Investimentos dos EUA, mostrando como seu presidente toma decisões o tempo todo em cima de intercâmbio de dados (tendo a vantagem da informação assimétrica), jogos de poder, “inside trading”, lavagem de dinheiro, etc [3].

Se, por um lado, este trabalho se baseia claramente, por questões de justiça e honestidade intelectual, numa sociologia calcada nas paixões humanas, por outro lado é evidente que houve resistências ao domínio matematicista da ciência social econômica dentre os que mais provavelmente não compartilhavam desta cosmovisão (talvez pela influência social das metodologias teóricas anteriores): até o próprio Keynes, que tanto influenciou a ciência econômica no século XX, não usava de excessiva matemática e gráficos em suas obras. Entretanto, vale a pena transcrever o discurso do então recém-laureado economista austríaco Friedrich von Hayek, que percebia o surgimento da nova mentalidade, sobre a importância de voltar a ver a Economia como ciência social, invés de tentar saturá-la de modelos probabilísticos que se supõe poder prever tudo, o que, de certa maneira, foi a base de todas as economias planificadas soviéticas depois provadas desastrosas no campo econômico.

O discurso é também importante por reconhecer humildemente os que o antecederam nas mesmas ideias:

“Ao contrário das ciências físicas, na ciência econômica — e em outras disciplinas que lidam com fenômenos essencialmente complexos — os aspectos dos eventos a serem estudados, e sobre os quais podemos coletar dados quantitativos, são necessariamente limitados.  Além disso, esse número necessariamente limitado de aspectos quantitativos pode não incluir aqueles aspectos mais importantes. Nas ciências físicas geralmente se supõe, provavelmente com boas razões, que qualquer fator importante na determinação dos eventos observados é ele próprio diretamente observável e mensurável. Já no estudo de fenômenos essencialmente complexos — tais como o mercado, que depende das ações de vários indivíduos —, todas as circunstâncias que irão determinar o resultado de um processo dificilmente serão totalmente conhecidas ou mesmo mensuráveis (…). Assim, ao passo que nas ciências físicas o pesquisador é capaz de mensurar, com base em uma teoria aparentemente evidente, aquilo que ele julga ser importante, nas ciências sociais frequentemente só se dá importância àquilo que por ventura possa ser mensurado. Esse modo de pensar é algumas vezes levado ao ponto em que se exige que nossas teorias sejam formuladas de uma maneira que leve em conta apenas grandezas mensuráveis (…)

É verdade que seus sistemas de equações descrevendo o padrão de um equilíbrio de mercado são aparentemente tão abrangentes que se preenchêssemos todas as variáveis dessas fórmulas abstratas — isto é, se soubéssemos todos os parâmetros dessas equações — seríamos capazes de calcular os preços e quantidades de todas as mercadorias e serviços vendidos.  Porém, como Vilfredo Pareto, um dos fundadores dessa teoria, afirmou claramente, o propósito desse sistema de equações não é “possibilitar um cálculo numérico dos preços”, porque, como ele disse, seria “absurdo” supor que podemos determinar todos os dados (PARETO, 1927, pp. 223-4). De fato, o ponto principal já havia sido entendido por aqueles notáveis visionários da economia moderna, os escolásticos espanhóis do século XVI, que enfatizaram que aquilo que chamavam de pretium mathematicum — o preço matemático — dependia de tantas circunstâncias particulares que era impossível que o homem conhecesse todas elas. Somente Deus teria tal capacidade”.

(HAYEK, 1974)

4.2.3        QUANTO À REVOLUÇÃO KEYNESIANA NA MACROECONOMIA

Em meados da primeira metade do século XX, emerge um súbito forte interesse teórico acerca das ideias de um economista até ali conhecido mais especificamente pelos cargos que exerceu. John Maynard Keynes não fora somente teórico, mas homem de ação. Além de ter sido professor em Cambridge, fez parte do departamento das Índias (1905), do Tesouro Britânico (1915), foi economista delegado do Governo à Conferência da Paz em 1919, conselheiro de governos sucessivos, diretor do Banco da Inglaterra, membro e presidente da Sociedade Real de Economia. Faleceu aos 63 anos de idade, em 1946. O acordo de Bretton Woods, analisado na seção 3 deste trabalho, teve uma evidente marca sua. Assim noticia Hugon (1980, p. 405) a vida daquele influente economista inglês.

O fato de que seu alcance prático falou mais alto que sua obra é reconhecido pelo professor de economia Bernard Dempsey em livro acerca de “usura e juros” (1943, P. 88, C. V), ao notar como ele era o economista mais lido de sua geração: “Mas essa popularidade não vem da lucidez de seu estilo; seu estilo não se presta a um sumário claro e simples. Palavras-chave – por exemplo, lucros, poupança, investimento – aparecem nos seus trabalhos em termos esotéricos”.

E comentava suas obras principais (“A Treatise on Money” de 1930, e “General Theory of Employment, Interest and Money” de 1935) novamente observando como tais obras chamaram atenção pelas “ideias contidas ali, mas não tanto como os convites aos economistas para ‘trocarem de calças’ e abandonarem um nebuloso amontoado de coisas desafortunadas em que Keynes ‘foi criado’. A primeira dessas duas obras foi um estudo digno de nota, mas não maravilhoso” (1943, p. 100).

O fato de que o próprio Keynes admitia que sua obra “não continha nada essencial que não fosse familiar aos leitores de Knut Wicksell e Dennis H. Robertson” (apud DEMPSEY, 1943, p. 101), clareia ainda mais a sua popularidade do ponto de vista social: o economista inglês foi um sintetizador.

Assim, é evidente a semelhança de sua figura e entorno com outro economista muito popularizado outrora: Adam Smith. “Com efeito, se pedíssemos ao cidadão comum para citar dois economistas históricos dos quais ele já ouviu falar, Smith e Marx provavelmente seriam os vencedores disparados da pesquisa.” (ROTHBARD, 1995, vol. I, p. 475). Contudo, após a “História da Análise Econômica” de Joseph Alois Schumpeter, que apontava como as sementes de toda a teoria econômica posterior já era aventada pelos escolásticos, foi introduzida “uma bomba-relógio no templo dos historiadores progressistas do pensamento econômico, em particular dos partidários da tradição de Smith-Ricardo-Marshall.” (ROTHBARD, ibid. p. 479). Schumpeter, após preciso e honesto trabalho histórico, mostra que a frase ‘está tudo em A. Smith’ “era um dito favorito de Marshall. Mas podemos também dizer: ’está tudo nos escolásticos’” (1954, p. 294, C. V, Parte II).

Com essas informações, portanto, pode-se afirmar que Keynes não foi senão o símbolo de um pensamento social que rompia com a tradição, tal como Adam Smith o foi em seu tempo. Por exemplo, a contabilidade nacional ou social, que investiga como se origina a riqueza das nações (por coincidência, um assunto tão interessante aos economistas no século XIX em que Adam Smith prevaleceu), se tornou uma ciência auxiliar da economia Keynesiana. Até hoje a contabilidade nacional ainda segue explicitamente seus princípios onde quer que seja implementada no ocidente (principalmente na contabilização da importação no PIB como algo negativo, uma convenção cara a Keynes). Por outro lado, nunca deixou de haver uma intenção boa na unificação do emaranhado de métodos de contabilização nacional, o que prejudicava o investimento internacional.

Já para o final do século XX, porém, ninguém mais lia Keynes no original, ainda mais com a abundância de correntes influenciadas por ele: os velho-keynesianos, novos keynesianos, pós-keynesianos, monetaristas e suas variantes, etc. E sem contar a crescente necessidade de tornar o ensino da economia algo muito atrelado ao saber estatístico e matemático (o que acabou afastando outra corrente ideológica da economia, o marxismo, visto que aqueles revolucionários passaram, após o fracasso econômico da União Soviética, a se preocupar mais com a revolução moral, privilegiando fatores humanos). Assim, Keynes virou uma lenda, como Adam Smith. Mesmo hoje, as inúmeras divergências entre os herdeiros de seu pensamento [4], raramente constrangem um economista a pensar que a raiz daquilo talvez revelasse algo.

Ao se propor a análise de mudanças sociais na estrutura monetária e bancária do ocidente e teorias paralelas, este trabalho deu razões para justificar a sociologia que o guiou: o molde dos pensadores da Economia não foram os pensadores prévios, mas as tendências humanas. Estabelecidas, essas tendências muitas vezes manejavam a prática das nações para um caminho bem diverso daquele discutido entre os pensadores. Keynes e as correntes que dele derivam parecem concordar somente em um ponto: a revolução monetária precisa continuar, isto é, há indispensabilidade na sequência de tudo que este trabalho identificou como estando presente na história, embora nem sempre como ideia. Resta saber qual será a próxima revolução monetária.


[2] Veja, por exemplo, o debate entre Phillips Bagus e Juan Ramón Rallo em INSTITUTO JUAN DE MARIANA, 2014.

[3] Obviamente, para efeitos de fidelização de audiência, o enredo gira quase sempre em torno do jogo de gato e rato entre um procurador jurídico e os responsáveis pelo “Hedge Fund”. Curioso para o tema deste trabalho é a cena em que o personagem principal, após comentar com seu colega que sabe os chamam de apostadores financeiros (traders gamblers), diz: “A economia mundial é só um grande cassino cheio de uma bolha de dívida gigante e derivativos movidos por computadores. Só há uma coisa melhor que ser um apostador em um cassino.” E ao que responde o seu colega interlocutor: “Ser a banca”, seguido pelo assentimento do primeiro personagem (CARBONPUFFIN, 2020, 00:17-00:29). E a cena prossegue para a idéia do trapaceiro economista investigado pelo braço jurídico americano: transformar-se em um banco para criar liquidez a fim de não ser perseguido pelo governo, mas ajudado por ele.

[4] A mesma análise talvez se possa fazer quanto à história do pensamento em outros campos do conhecimento desde a Era moderna, seguindo esta sociologia.

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